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Por que algumas comidas nos fazem lembrar de quem amamos?

  • Foto do escritor: Ana Clara Cavalcante
    Ana Clara Cavalcante
  • há 6 horas
  • 3 min de leitura

Cozinhar, presentear e dividir a mesa podem expressar cuidado, fortalecer relações e criar lembranças

Você provavelmente já experimentou uma comida e se lembrou de alguém. Às vezes, basta um cheiro conhecido tomar conta da cozinha para trazer de volta uma pessoa, uma casa ou um almoço de infância.


“Quando a gente pensa em uma comida de que gosta, quase nunca se lembra da comida em si. Lembra quem fazia, onde comia e com quem você comia”, explica a psicanalista Bruna Vano.

Uma receita de família pode ser difícil de reproduzir porque, além dos ingredientes, a gente também guardou o ambiente, a companhia e a maneira como a comida era servida, mesmo sem perceber.


Um artigo da Associação Psicanalítica de Porto Alegre explica que comer deixou de responder apenas à necessidade de sobrevivência e ganhou uma dimensão social. Cozinhar e dividir refeições fizeram do alimento parte da convivência e da relação com o outro.

“A comida não é só para nutrir o corpo. Ela está intimamente ligada a todas essas outras coisas”, afirma Vano.


Essa ligação ajuda a entender por que preparar uma receita sem um ingrediente de que o outro não gosta, deixar uma refeição pronta ou escolher um alimento para presentear podem ser formas de demonstrar carinho e escuta. O mesmo vale para a procura por ingredientes mais naturais, quando a escolha leva em conta os hábitos, as preferências e as necessidades daquela pessoa.


“Esses gestos podem dizer: ‘Eu conheço você, presto atenção em você e sei da sua singularidade’.” — Bruna Vano

Já a refeição compartilhada cria um espaço de convivência, mesmo quando o encontro faz parte da rotina. Segundo o World Happiness Report 2025, que analisou dados de 142 países e territórios, os moradores da América Latina e do Caribe dividem, em média, nove refeições por semana.


Para a psicanalista, a força desses momentos também está na repetição. É o caso do almoço de domingo, da comida de uma festa popular ou do prato preparado todos os anos em uma data comemorativa.


“A repetição cria um ritual. A comida sustenta a festividade e a festividade permite que aquela comida continue existindo”, afirma. “Isso dá uma dimensão comunitária à vida e cria um lugar de afeto e compartilhamento.”


Receitas podem mudar sem perder a história


Preservar uma receita afetiva não significa repeti-la sempre da mesma maneira. Trocar um ingrediente, adaptar o preparo ou compartilhar a receita com outras pessoas também pode dar continuidade à história.


Isso acontece porque a memória não funciona como um registro imutável. As lembranças do passado são reorganizadas a partir das experiências do presente. Ao modificar uma receita de família, uma pessoa preserva parte do que recebeu, mas também deixa algo próprio naquele preparo.


“Recriar ou compartilhar uma comida preserva a memória, mas também produz memória”, resume a psicanalista.

Essa relação, porém, não deve ser idealizada. Algumas pessoas encontram prazer e conforto na comida, enquanto outras não atribuem a ela o mesmo valor.


“A comida pode ser uma grande via de afeto, contanto que isso não seja tratado como algo universal”, ressalta Vano.


Procurar um prato conhecido em um dia difícil não deve gerar culpa, mas o alimento também não precisa ser a única resposta para a tristeza ou a ansiedade. Quando essa relação provoca angústia frequente, compulsão ou perda de controle, pode ser necessário buscar ajuda profissional.


Da mesma forma, reduzir a comida apenas a calorias e nutrientes pode apagar dimensões ligadas ao prazer, à cultura e à convivência. Para Vano, isso acontece quando as categorias nutricionais substituem completamente o nome, o sabor e a história dos alimentos.


No Broto Botica, esse cuidado pode começar antes do preparo, na escolha dos ingredientes. É possível buscar alimentos para retomar uma receita da família, adaptar um prato ou montar um presente que considere os gostos de quem vai recebê-lo.




Referências: 


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